Fluminense Campeão e Como as Mídias Tradicionais Estão Perdidas em Tempos de Internet

Artigo

por Alex Moraes

publicado em: 14/11/2012

Artigo alterado para mostrar novo caso semelhante. As alterações em relação ao texto original estão em azul.

Jornais brasileiros pedem para sair do Google News e Globo decide retirar seu conteúdo do Facebook. Nos dois casos a visitação vinda desses serviços mostrou-se, para eles, "irrelevante".

Não, isso não é um artigo sobre futebol, mas uma análise que mostra que, quando empresas estão sem rumo, elas parecem agir como torcedores de futebol, envolvendo paixão em decisões que deveriam apenas envolver análise fria, matemática.

Explico. O Fluminense fez uma das melhores campanhas da história do campeonato brasileiro, em número de pontos ganhos, vitórias e saldo de gols, menor número de derrotas e gols tomados, artilheiro do campeonato, etc (pelo menos até ser campeão antecipado...). Tudo isso sumiu quando, em 2 jogos, os juízes erraram a favor do Fluminense (eles sempre erram, contra e a favor de todos) e pronto, o campeonato foi roubado, o rico time do Flu comprou os juízes e a CBF e outras reações típicas de torcedores dos times que não venceram, tentando diminuir a conquista, mesmo com números tão avassaladores.

Muda a cena. A Associação Nacional dos Jornais, em reunião de seus associados, decidiu, por unanimidade, que todos os veículos a ela afiliados não desejam ter as primeiras linhas dos conteúdos de seus associados expostas no agregador Google Notícias (Google News), mas apenas descrição básica de uma linha e link para o site do jornal. O papel do agregador do Google, na opinião da associação, em ação conjunta com uma organização mundial dos jornais, não ajuda a aumentar a audiência dos jornais, pois, ao dar as primeiras linhas, reduz a possibilidade de os internautas lerem a notícia completa na página online do jornal. Em contrapartida, o Google diz que o número de cliques nos links ultrapassa 1 bilhão em todo o mundo. A briga, na verdade, vem do desejo dos jornais de serem remunerados pelo material que as buscas expõem, para o que o Google responde que seria como “um restaurante cobrar do motorista de táxi pelo cliente que ele levou para almoçar lá”. Você já percebeu, é briga de cachorro grande.

Matéria incluída após publicação original

Agora foi a vez de as Organizações Globo decidirem retirar seu conteúdo do Facebook. De acordo com artigo publicado no Meio e Mensagem Juarez Queiroz, CEO da Globo.com justifica a decisão dizendo que "o tráfego com origem na rede social não era significativo e que o Facebook não é importante na distribuição de conteúdo da Globo, representando menos de 2%, na média, em alguns produtos menos de 1%”". O próprio Juarez diz que o G1 alcança mais de 18 milhões de usuários únicos, assim, ele está dispensando entre 90 e 180 mil pessoas por mês. Novamente, a justificativa é que as pessoas não vão ao site ler a notícia. É interessante ver a reação das pessoas nos comentários do referido artigo. 

Voltemos ao futebol. Aqui não há razão, justiça ou sentimento nobre. É emoção pura, torcida exacerbada, a tristeza do quase ganhar, de um ano sem títulos, ou o que quer que seja. Tudo isso apaga a análise fria: o outro ganhou porque foi melhor. É ingênuo quem acha há alguma outra preocupação.

Já empresas não têm ou não deveriam ter sentimentos, devem ter princípios, não devem achar, mas analisar dados e concluir. É razoável pensar que conteúdos têm pai ou mãe, envolvem criação, posse, algo de humano que pode levar a uma confusão de posicionamentos. Se o Google leva milhões de visitas e estas geram visibilidade e faturamento, o modelo sem pagamento no Google News é bom. Se a não exposição das notícias no Google News levar mais visitas e proporcionar mais faturamento, a opção sem Google News é melhor. Agora: 

Proibir ou mutilar a exibição das notícias é ruim para o jornal, ruim para o Google e péssimo para o leitor.

Independente dessa análise, o que não funciona é negar o óbvio, fechar os olhos para mudanças de hábitos e deixar de perceber que, ao passo que jornais fecham e a audiência dos canais de televisão cai, a internet cresce cada vez mais. O dono do maior e-commerce do mundo, a Amazon, acabou de comprar um dos maiores jornais dos Estados Unidos, o Washington Post. Cabe, aqui, uma análise fria. Aceite e adapte-se ou desapareça. Não há margem para mudar essa situação, não há campanha capaz de fazer as pessoas que passaram a ler notícias na Internet voltarem para o papel. Ou será que, quando os jornais criaram suas versões online, os executivos esperavam que, depois de ler as notícias na internet, as pessoas correriam para as bancas no dia seguinte para confirmar o que já tinham lido? Todos sabemos que negócios não toleram ingenuidade.

Todos sabemos que negócios não toleram ingenuidade.

Em um ponto, a estória do futebol e da empresa mostra o ápice da divergência. No futuro só se lembrará do título do Fluminense, uma estrela a mais na camisa do time e isso nunca mudará. Já a empresa pode até se arrepender posteriormente de uma decisão tomada, mas é pouco provável vir a ter a chance de mudar essa realidade. Será que as recentes manifestações articuladas por meio das mídias sociais os farão repensar essas decisões?

Em outro artigo falei da cultura do grátis e das tantas empresas, inclusive jornais, que demoraram demais a cobrar por acesso a seus conteúdos online, que, quando resolveram cobrar, já era tarde demais e o modelo não vingou. Não foi premonição e sim análise, e é isso que empresas devem fazer. Não tenho números para dizer se a decisão dos jornais ou da Globo é correta ou não e se o problema é único - a propriedade do conteúdo. De fora, fica a sensação que há muito mais envolvido. Vale a pena deixar empresas de tecnologia controlar tanto conteúdo e tantas frentes? A digitalização de livros e os e-books transferem a poder das editoras para as empresas distribuidoras? E a publicidade, que está migrando dos meios tradicionais para o mundo online, e já tem o Google como maior player e o Facebook crescendo rapidamente? Ingênuo, aqui, é quem acha que o problema é um só.

Aguarde cenas dos próximos capítulos.

A propósito, sou conteudista e, por experiência própria, entendo a irritação que cópia, apropriação indevida e tudo mais a que conteúdos estão expostos podem causar. Sei que o Google e o Facebook ganham ao expor meu conteúdo em suas páginas e não me pagam por isso, mas agradeço todos os dias por meu conteúdo estar ali, exposto, atraindo visitantes novos, "sem custo". De outra forma eu estaria investindo em PPC, publicidade online ou qualquer outra forma para conseguir essa mesma exposição. Cabe a mim transformar esses visitantes em clientes.

Ah, só mais duas coisas. Analisando friamente, acho bom estar do lado online da força. A outra? Sou tricolor de coração, sou do time tantas vezes campeão!!!

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Alex Moraes é especialista em Marketing Digital, escritor e palestrante. É responsável pelo conteúdo, cursos e eventos da MarketingDigital.com.br, além do canal no Youtube, grupo no LinkedIn, página no Facebook e perfil no Twitter.